DEBATES





Arte para que?

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A pergunta que intitula este debate pode parecer um tanto imprópria. Afinal, em um tempo em que as relações entre arte e loucura parecem estar absolutamente estabelecidas, por que interrogar seus sentidos? Na verdade, este título problematiza, justamente, a naturalização da articulação entre arte e loucura. Reflexão pertinente, já que toda naturalização corre o risco de gerar o banal, o automático, o simplificado. Da idéia de que todo artista é louco, e vice-versa, ao ideal de que a arte é, por si só, instrumento viabilizador de transformações psicossociais para os ditos loucos, delimita-se o cenário da naturalização. O simples oferecimento de atividades artísticas seria capaz de produzir mudanças subjetivas, sociais ou econômicas para os sujeitos diagnosticados como loucos? Oferecemos a eles telas e tintas e seus quadros serão expostos e vendidos em galerias de artes, gerando renda que os liberte de precárias situações financeiras? Damos papel e lápis ao paciente psiquiátrico e ele representará suas angústias e delírios produzindo alguma estabilização para sua psicose? As vivências da loucura, da mania e da depressão, são relatadas por alguns artistas como propulsoras de suas obras. A loucura é descrita muitas vezes como criadora e produtiva, o que lhe dá, muitas vezes, um tom romântico. Nesta perspectiva, o sofrimento, o mal-estar e a loucura são necessários para criar. Com quais noções de arte e loucura estamos lidando? Será que, para estes artistas, esta experiência é elementar? Ao problematizar a naturalização da articulação entre arte e loucura, apontamos para novos arranjos entre estes dois campos. Estas novas conexões não deveriam incluir as questões estéticas, políticas e subjetivas colocadas pela arte contemporânea? As respostas para estas perguntas certamente não são fáceis. Mas são possíveis. Ao problematizar a referida naturalização, e suas falsas facilidades, adentramos ao campo do possível. E possibilidade implica em condicionalidade. Quais as condições necessárias para que a articulação entre arte e loucura produza subjetividade, arte, renda, estabilização, cidadania, enfim, vida? Arte para que?